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Monteiro Lobato: a importância de ter opiniões

Por Carlos Faccina
Você já reparou como existem pessoas que sabem muito sobre determinada coisa? São especialistas. Passaram anos dedicados a uma profissão e nela conhecem os caminhos, atalhos, retornos, becos, ciladas e armadilhas.

Eles se debruçam sobre um projeto e, em questão de segundos, apontam o dedo sobre um pequeno quadrado. Indicam um número com o sinal invertido. É claro o impacto daquela inversão na falha. Ninguém conseguiu perceber a exata causa do problema até então, e estava lá, naquele sinal invertido.

João entra nas reuniões silencioso. Observa os debates acalorados, não mexe um músculo em sua face. Até que chega o momento do impasse e todos olham na direção de João. Ele tira a atenção de suas anotações e, voltando-se para todos, emite não um parecer, mas uma verdadeira ordem imperial. Todos se calam sob a força daquela opinião e se curvam ao veredicto. Um misto de incômodo e impaciência fica no ar. Resignados, meio tolos, os participantes reconhecem a miopia frente ao desafio colocado.

Para João, é natural. Seu olhar caça o erro, a não-conformidade que salta do documento, mas invisível para todos os outros. Ele é capaz de fazer uma leitura daquele processo no qual é especialista. Mas não peça para o João se afastar daquele metro quadrado de especialidade. Ele transpira, sente-se desconfortável. Fica calado. Seus chefes sabem dessa situação e se resignam com essa sabedoria especialista. Deixe o João ali porque ele tem a opinião que nós precisamos.

Em casa, João é um cidadão sem opinião.

Nem os amigos reconhecem a importância que ele tem na empresa. Não sabem do que ele é especialista. Sentado em sua poltrona, João vê o mundo pela televisão. Se guia pela maioria. Não entende de futebol, política e religião. Protege-se no lugar comum. Em rodas de conversa, percebe o rumo que a maioria toma e se posiciona confortável entre eles.

Acredito fielmente que o João é muito importante para a empresa. Mas precisamos de pessoas com opinião no Brasil, sobre o Brasil. Não apenas sobre as coisas que acontecem no meu cercado, mas no entorno e que me afetam no médio e longo prazos. Ficou claro para mim no recente processo eleitoral que navegamos as águas rasas das discussões mais relevantes sobre os destinos do país. Somos levados de um lado para o outro, ao menor movimento do vento. E essa qualificação do debate na empresa, na comunidade e no Brasil passa por uma transformação na educação.

Lembrei-me dessa história inspirado no prefácio escrito por Monteiro Lobato para o livro Antologia dos grandes contos humorísticos, organizado por Edgard Cavalheiro e Araújo Nabuco (1944), publicado no site de Monteiro Lobato .

Monteiro Lobato, como todos sabem, era um homem de opinião. Opinião sobre tudo: sobre o País, sobre a economia, sobre a política, sobre a agricultura, sobre a cultura, sobre a literatura, sobre edição de livros… Você poderia e pode ainda discordar de Monteiro Lobato, mas você não pode ignorá-lo.

Neste texto, Lobato estabelece um longo tratado sobre o humor, veja que interessante. Sim, ele dedicou tempo a refletir sobre um conceito que melhor poderia explicar o humor. Quem tiver interesse, peço que vá até lá ler a íntegra do texto. Retirei uma parte que a mim especialmente interessa. Lobato fala se sua metodologia para formar uma opinião:

“Pus-me um dia a pensar no assunto. Há dois meios de abordar um assunto: o dos homens práticos, que vão às enciclopédias ver em que ponto os outros o deixaram, e o dos homens “integralistas”, isto é, que se divertem em tentar tirar tudo de si, integralmente. Como? Pensando. O mesmo método de Newton na descoberta da lei da gravitação universal. Vira ele uma formosa maçã cair da árvore. Em vez de comê-la, como fez Eva no Paraíso, pôs-se a pensar no por que da queda das maçãs. E emendou pensamento com pensamento até que toda a entrosagem da mecânica celeste se esclareceu em seus miolos. “

E continuou…

“O melhor método de bem pensar é o peripatético” (o mesmo que aristotélico, que se ensina passeando, como Aristóteles – 384-322 aC) – “passeando, andando. Estava agradável o dia, e em vez de tomar meu ônibus no ponto habitual, fui tomá-lo em outro muito distante, a quarenta minutos a pé dali – e nesse trajeto, feito na toada de quem fala mentalmente consigo mesmo, formulei uma noção do humor que para o meu gosto me satisfaz… (leia lá no site)”

Finalizando o método peripatético:

“Não é um estudo eclético e em trajes de rigor do que já se escreveu sobre o assunto”, falando sobre o humor –, “sim apenas a conclusão do a que cheguei por força dos 6.261 passos da Aclimação ao começo da rua da Glória, a esmoer o tema no moinho do pensamento. É provável que a gestação peripatética produzisse feto maior e mais de vez, se meus pés me houvessem levado até a Ponte Grande, por exemplo. Mas o elemento cansaço costuma interferir com o peripateticismo – a gente toma o bonde que passa e adeus maçã de Newton!..”

Uma vez, visitando uma fábrica, um profissional me mostrou o estoque repleto de produtos. Disse que o desafio era encontrar na cidade local para armazenar mais produto novo. Quis saber a razão daquele cenário e perguntei. Pensei que ele iria indicar uma questão comercial, macroeconômica, de exportação, do preço do dólar, influência da sazonalidade… Ele apenas me disse: “Não sei, só sei que o estoque está cheio”.

Muitos de nós, em todas as áreas de conhecimento, somos especialistas, mas não conseguimos ampliar nossa visão para o todo, para o processo, para o que veio antes e para o que virá depois. Acredito na capacidade que temos de antevisão, mas para isso precisamos desconfiar da simplicidade e da certeza.

Gostaria de ver a formação de muitos Monteiros Lobatos neste país, discordando, debatendo, mas, acima de tudo, tendo muita opinião. Não é tão difícil se olharmos com carinho o método peripatético: passeando, andando… e pensando. (Falaremos em breve sobre Aristóteles e a importância de fazer a pergunta certa, assim como voltaremos à história de Lobato).

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